"A ditadura não acabou"
Obs: essa reportagem é da Edição: 2099, de 29.Jan.10 - 21:00. Carlos Alexandre se suicidou na madrugada de hoje, com uma overdose de remédios.
Filho de militantes de esquerda, Carlos Alexandre foi preso e torturado quando era bebê. Cresceu agressivo e isolado. Aos 37 anos, ele ainda sente os efeitos dos anos de chumbo: vive recluso, sem trabalho nem amigos - sofre de fobia social
Solange Azevedo
No vídeo abaixo você confere os depoimentos de Dermi Azevedo, pai de Carlos Alexandre
Carlos Alexandre Azevedo, 37 anos, torturado quando era bebê.
Ele tem olhos de aflição e feições de dor. Suas palavras saem
cadenciadas, são quase sussurros. “Minha família nunca conseguiu se
recuperar totalmente dos abusos sofridos durante a ditadura”, diz. “Os
meus pais foram presos e eu fui usado para pressioná-los.” Carlos
Alexandre Azevedo tinha 1 ano e 8 meses quando policiais invadiram a
casa da família, na zona sul de São Paulo, e o levaram para a sede do
Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops). Era 15 de
janeiro de 1974. Bem armados e truculentos, os agentes da repressão o
encontraram na companhia da babá – uma moça de origem nordestina
conhecida como Joana. Chegaram dando ordens. Exigiram que os dois
permanecessem imóveis no sofá. Apenas Joana obedeceu. Como castigo pelo
choro persistente, Carlos Alexandre levou uma bofetada tão forte que
acabou com os lábios cortados. Foram mais de 15 horas de agonia. O drama
de Carlos Alexandre – um dos mais surpreendentes dos anos de chumbo –
veio à tona no momento em que o governo brasileiro discute a criação da
Comissão Nacional da Verdade para apurar casos de tortura, sequestros,
desaparecimentos e violações de direitos humanos durante a ditadura
militar (1964-1985). Carlos Alexandre decidiu revelar sua história, com
exclusividade, à ISTOÉ depois que o seu processo de anistia foi julgado
pelo Ministério da Justiça. No dia 13 de janeiro, ele foi declarado
“anistiado político”. Deve receber uma indenização de R$ 100 mil por ter
sido vítima dos militares. “Muita gente ainda acha que não houve
ditadura nem tortura no Brasil. No julgamento, em Brasília, me senti
compreendido.
Carlos aos 3 anos, com os pais
As pessoas sabiam que o que eu vivi foi verdade”, alega. “A indenização
não vai apagar nada do que aconteceu na minha vida. Mas a anistia é o
reconhecimento oficial de que o Estado falhou comigo. Para mim, a
ditadura não acabou. Até hoje sofro os seus efeitos. Tomo antidepressivo
e antipsicótico. Tenho fobia social.” Fragmentos da vida de Carlos
Alexandre, hoje com 37 anos, estão guardados na memória do pai, o
jornalistae cientista político Dermi Azevedo. Outros ficaram entre as
lembranças da mãe, a pedagoga Darcy Andozia. “Minha família sempre foi
muito retraída, sem diálogo. Não costumávamos falar sobre tortura. Esse
assunto sempre foi tabu entre nós”, conta Carlos Alexandre. Ele
descobriu o próprio passado ao remexer em gavetas, aos 10 ou 11 anos de
idade. Misturado a fotografias antigas e a uma porção de papéis,
encontrou o desenho de uma vaquinha, conhecida na época por simbolizar a
“esperança”, com o seguinte recado: “Deops 1974: Quando você ficar mais
velho, seus pais vão te contar a sua história.” Parte do sofrimento da
infância lhe foi revelada pela mãe. “Cacá apanhou porque estava chorando
de fome. Os policiais falavam que, naquela idade, ele já era doutrinado
e perigoso”, lamenta Darcy. Presas políticas disseram ao pai que o
menino fora torturado no Deops. “Meses depois de sair da prisão, soube
que o meu filho tinha sido vítima de choques elétricos e outras
sevícias. Ele foi jogado no chão e bateu a cabeça”, afirma Dermi.
“Maltratar um bebê é o suprassumo da crueldade.” Quando os agentes
levaram Carlos Alexandre e a babá, Darcy não estava em casa – seria
trancafiada no Deops horas depois.
“Até hoje sofro os efeitos da ditadura. Tomo antidepressivo e antipsicótico. Tenho fobia social”
Ela havia saído cedo em busca de ajuda para o marido preso. Aquela era a
segunda invasão à residência dos Azevedo. Na noite anterior, policiais
vasculharam todos os cômodos em busca de “material subversivo”.
Encontraram um livro intitulado “Educação Moral e Cívica & Escalada
Fascista no Brasil” e o consideraram uma injúria às autoridades. Dermi,
Darcy e a educadora Maria Nilde Mascellani foram processados – e
absolvidos – sob a acusação de tentar difamar o Estado brasileiro. Dermi
e Darcy eram ligados aos padres dominicanos e a uma das principais
vozes que lutavam contra a ditadura, o então cardeal de São Paulo, dom
Paulo Evaristo Arns. Faziam parte da retaguarda do movimento de
resistência – abrigavam militantes que se preparavam para embarcar para o
Exterior. O período de cárcere foi tenso e doloroso. Darcy permaneceu
mais de 40 dias na cadeia. Foi pressionada psicologicamente, mas não
sofreu violência física. Dermi ficou cerca de quatro meses no xadrez.
Apanhou muito. Quando já não suportava mais a dor, invocava o nome
d’Ele: “Ai, meu Deus. Meu Deus.” Enquanto Darcy esteve atrás das grades,
Carlos Alexandre foi cuidado pelos avós – e continuou a sofrer as
consequências de escolhas que não foram suas. “Em certos momentos, tive
raiva porque meus pais expuseram os filhos. Mas depois senti orgulho
porque eles lutaram contra os abusos dos militares e fazem parte da
história do Brasil”, diz. Carlos Alexandre padece de um transtorno
chamado pela ciência de fobia social: um medo excessivo e persistente de
se expor à avaliação alheia. Quem tem esse distúrbio se esquiva
sistematicamente de contatos interpessoais – principalmente com pessoas
do sexo oposto, desconhecidas ou autoridades – porque teme ser humilhado
ou rejeitado.
Dermi Azevedo, jornalista, pai de Carlos Alexandre, em frente ao prédio onde funcionava o Deops
O diagnóstico foi mencionado pela psicóloga Ana Maria Falvino, que
tratou de Carlos Alexandre, num documento encaminhado à Comissão de
Anistia. No texto, a psicóloga detalha a evolução do transtorno no
paciente e situações relatadas pela família Azevedo. Mas não afirma
categoricamente que o problema dele é consequência direta de tortura.
As situações vividas por CarlosAlexandre, no entanto, o inserem no grupo
de risco descrito pela medicina. De acordo com o médico Márcio Bernik,
coordenador do Ambulatório de Transtornos de Ansiedade do Instituto de
Psiquiatria da Universidade de São Paulo, cerca de 30% dos casos de
fobia social têm origem genética. Os outros 70% se devem a vivências
complexas.Os pais são o primeiro modelo para a criança. Observar como
eles lidam com as adversidades, se enxergam o ambiente social como
fonte de prazer e alegria ou como algo desconfortável e ameaçador, se
são tímidos ou têm muitos amigos, é de extrema importância para o bom
desenvolvimento infantil. Bernik afirma que crianças provocadas e
maltratadas por colegas e que vivem experiências marcantes de rejeição e
de sofrimento são mais suscetíveis à fobia social na vida adulta. Logo
que Dermi deixou a prisão, em maio de 1974, a família toda se mudou para
a sua terra natal, o Rio Grande do Norte. Primeiro foi para Currais
Novos, no interior do Estado. Em seguida para a capital, Natal. A
violência psicológica e as agressões físicas – como as intermináveis
sessões no pau de arara e os repetidos golpes na cabeça, chamados nos
porões da ditadura de “telefone” – derrubaram Dermi. Durante um bom
período, ele não foi capaz sequer de sair da cama. Passava o tempo todo
coberto. Teve crises de paranoia e medo de tudo. Não podia trabalhar. O
aperto financeiro desestabilizava ainda mais a família. Ele foi
recuperando devagar a coragem de se levantar, ir à esquina, andar
sozinho.
“Meses
depois de sair da prisão, soube que o meu filho tinha sido vÍtima de
choques elétricos e outras sevÍcias. ele foi jogado no chão e bateu a
cabeça. maltratar um bebê é o suprassumo da crueldade”
“Dermi não se destruiu. Transformou o trauma numa batalha pela vida e
continua lutando pela dignidade humana”, avalia a psicanalista Miriam
Schnaiderman, codiretora do documentário “Sobreviventes”, que narra
experiências de pessoas que passaram por situações-limite. Enquanto
Dermi tentava se recuperar, Darcy tinha de se desdobrar para dar conta
da casa e dos filhos – do primogênito e de dois meninos que vieram
depois. Carlos Alexandre demonstrou os primeiros sinais de isolamento já
em Currais Novos. Não interagia comoutras crianças, tornou-se agressivo
e andava sempre triste. Às vezes, acordava agitado procurando pela mãe:
“Mamãe, onde é o barulho do trem?” A sede do Deops, onde ele esteve
detido durante algumas horas, era na região da Estação da Luz. De lá,
dava para ouvir o som do vai e vem das composições. Apesar de a família
estar longe de São Paulo, onde a perseguição seria mais severa, os
Azevedo eram constantemente vigiados pelos militares locais e
discriminados pela vizinhança. Viviam sendo apontados como “bandidos”,
“terroristas” e tratados como se tivessem alguma doença contagiosa.
Carlos Alexandre cresceu sob intensa pressão, testemunhando as crises do
pai e a inquietude da mãe. Chorava para não ir à escola. Não suportava
ficar distante dos pais. A instabilidade e a dinâmica familiar
contribuíram para aumentar o afastamento de Carlos Alexandre. “A
perseguição afetou os outros filhos, mas não de maneira tão intensa
quanto ele”, relata Dermi. As mudanças de casa e de cidade eram
constantes a ponto de os meninos não serem capazes de criar laços de
amizade ou se adaptar completamente à escola.
Darcy Andozia, pedagoga aposentada, mãe de Carlos Alexandre
O único período de relativa calmaria e imobilidade durou cerca de quatro
anos – entre 1981 e o início de 1985, quando os Azevedo moraram em
Piracicaba, no interior paulista. A filha mais nova nasceu lá. Todos
eram respeitados. Darcy e Dermi tinham vínculo com uma universidade do
município – já não eram encarados como “bandidos” ou “terroristas”, mas
como intelectuais. E a ditadura militar caminhava para o fim. A saída de
Piracicaba foi traumática para Carlos Alexandre. “Era o único lugar em
que eu tinha amigos. Foi aí que me isolei de vez. Parei de estudar e me
tranquei em casa”, lembra. Carlos Alexandre tinha acabado de entrar na
adolescência. No interior paulista, costumava brincar na rua, jogar bola
e frequentar festinhas vestindo short e camiseta. Não se importava
muito com o figurino. Os novos desafios da cidade grande o fizeram
submergir no medo. Ele já não era mais convidado para festas, se sentia
incapaz de dançar com as meninas e apanhava dos garotos cotidianamente.
Quando tentava revidar, era pior. Apanhava mais. “Por ser introvertido,
não ser muito bonito nem me vestir como eles, eu era humilhado e vivia
sendo alvo de chacotas”, afirma. Carlos Alexandre sucumbiu à crueldade
adolescente e se enterrou nas próprias fragilidades. Afirma ter passado
cerca de sete anos (dos 13 aos 20) praticamente sem sair de casa. Tentou
frequentar a escola. Não conseguiu. Nos momentos de nervosismo intenso,
quebrava tudo o que encontrasse pela frente. Engordou 40 quilos em seis
meses. Tentou o suicídio “algumas vezes”. Quando decidiu enfrentar o
medo da rua, trabalhou como auxiliar de escritório.
“O meu filho apanhou dos policiais do deops porque estava chorando de fome. levou um tapa tão forte que cortou os lábios"
Ficou um ano no emprego – seu recorde com carteira assinada. Depois
atuou como operador de microcomputador e diagramador. Interagir era tão
penoso que Carlos Alexandre pediu demissão e foi demitido diversas vezes
porque não suportava conviver com os colegas de trabalho. “As pessoas
começavam a perguntar da minha vida: o que eu fazia, se tinha estudado,
se tinha namorada, quem eu era, aonde eu ia. Acabava ficando um clima
ruim”, conta. “Estar no meio de muitas pessoas é muito cansativo para
mim. Falar também. Sair de casa e sentar num bar é um incômodo muito
grande. Mas hoje já não entro em pânico porque estou em tratamento.” Um
ou dois amigos visitam Carlos Alexandre esporadicamente. Vão ao
apartamento que ele divide com a mãe na região central de São Paulo.
Seus outros – raros – amigos são todos virtuais. Ao optar pela rede, ele
se protege da sociedade. “Quando rompo o ciclo vicioso, consigo até ter
uma vida. Mas tenho muito medo de recaídas”, diz. Atualmente, ele
costuma sair três vezes por semana para ir à academia. De vez em quando,
vai à banca comprar gibis japoneses. Sua rotina é singela. Mas Carlos
Alexandre quer mais. “Não sou feliz. Sinto vergonha de não trabalhar.
Também gostaria de ter uma família minha, com mulher e filhos. Mas tenho
consciência de que devo dar um passo de cada vez. Talvez, com um pouco
de sorte, eu consiga recomeçar. Mesmo estando com 37 anos.”
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